EXPOSIçãO SANJOANINAS 2008
O sismo que abalou os Açores em fotografias inéditas

No dia um de Janeiro de 1980, às 15H42m e 38,7s (hora e local) a terra tremeu violentamente nos Açores. O sismo de grau 7,0 na escola de Richter atingiu com intensidade as ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa.
O trágico balanço deste terramoto foi de 61 mortos e centenas de feridos.
Esta é a descrição inicial que serve de mote à exposição “1.80 – O Sismo que Abalou os Açores” da autoria do fotojornalista João António Marques Valentim, que consta das exposições promovidas pelas Sanjoaninas 2008, e que poderá ser apreciada no Centro Cultural e Congressos de Angra do Heroísmo a partir da próxima sexta-feira.
O relato continua: mais de 15 mil habitações ficaram total ou parcialmente destruídas, nas três ilhas, sendo o número de desalojados acima dos 20 mil. De Figo Maduro (aeroporto militar) em Lisboa foi montada uma ponte áerea, tendo partido, no dia seguinte ao sismo, três aviões C-130 da Força Aérea Portuguesa. No primeiro seguiu o General Ramalho Eanes, Presidente da República, com outras tantas personalidades. No segundo C-130, carregado de tendas, cobertores e primeiro socorros, seguiam apenas dois passageiros, eram os repórteres fotográficos Marques Valentim do jornal Portugal Hoje e Fernando Farinha do Diário de Notícias.
“Fomos os primeiros fotojornalistas do Continente a chegar à ilha Terceira”, conta Marques Valentim. “A nossa preocupação era mostrar em imagens, a destruição e a dor. Alugámos um táxi e, durante duas horas, percorremos o que foi possível enquanto havia luz. Depois, regressámos ao aeroporto das Lajes para podermos enviar para as nossas redacções, os rolos a preto e branco que havíamos fotografado”.
Na ilha Terceira permanece mais seis dias, apenas com a roupa que leva no corpo. “O meu colega de escrita o Jorge Oliveira (infelizmente já falecido) chegou no voo comercial Lisboa-Angra, que horas depois transportaria os meus primeiros rolos com a reportagem”. Marques Valentim recorda que “na primeira noite que ficámos em Angra do Heroísmo não conseguimos dormir, bem como a população local, devido às cinco fortes réplicas que se fizeram sentir na ilha”.
Nos seis dias de estadia em Angra, o repórter fez cerca de 200 fotos a preto e branco e diversos slides a cores que entretanto se perderam com o encerramento do jornal. “Consegui preservar sete rolos a preto e branco dos quais escolhi esta meia centena de fotos que exponho 28 anos depois.”
“Com tristeza constato hoje que para além da morte do meu colega de equipa Jorge Oliveira, os meus colegas de profissão José Luís Macedo (texto) e o Salvador Ribeiro (fotos) ambos do Correio da Manhã e que tambem lá estiveram comigo, já partiram”.
“Esta exposição fotográfica é uma pálida amostra da verdadeira calamidade que enlutou os Açores, naqueles anos de 1980”, conta.
Reconstrução e solidariedade
As fotos em exposição, na sua maioria, inéditas, descrevem igualmente a onda de solidariedade que se seguiu levou à reconstrução das ilhas martirizadas e em 1983 a UNESCO considerou a Angra do Heroísmo como a primeira cidade portuguesa Património Mundial, pelo seu valor arquitectónico, histórico e cultural. Comemoram-se, portanto, os 25 anos desta atribuição à cidade de Angra e, é neste âmbito, que a comissão de festas das Sanjoaninas convidaram o fotojornalista Marques Valentim a expor, no Centro Cultural e de Congressos de Angra de Heroísmo. “A possibilidade das pessoas se poderem reencontrar ou rever, 28 anos depois, nas fotos em exposição, constitui um dos maiores aliciantes desta mostra fotográfica” salienta Marques Valentim.
A inauguração, conforme referido, decorrerá a 20 de Junho, data de arranque das principais festas da ilha Terceira – as Sanjoaninas – e ficará patente até dia 31 de Agosto de 2008.
As imagens, no seu entender “revivem não só a destruição e a dor, mas também a onda de solidariedade vividas naqueles dias amargos da história recente dos Açores”.
O fotojornalista
Nascido em Cascais, a 1 de Agosto de 1949, Marques Valentim surgiu no fotojornalismo logo após o 25 de Abril de 1974. Durante cerca de um ano esteve ligado à Agência Europeia de Imprensa (A. E. I. – Notícias) onde cobriu os principais acontecimentos que se deram no nosso País entre Setembro de 1974 e Agosto de 75.
A 1 de Setembro desse mesmo ano, iniciou oficialmente, a sua carreira de fotojornalista no diário “A Luta” no qual permaneceu até à sua extinção, em Janeiro de 1979.
Fez parte da equipa que lançou o “Correio da Manhã” – de 15 de Março de 79 a 15 de Setembro de 1979. Em Outubro de 1979 entrou para o “Portugal de hoje”, onde permaneceu até ao fim deste matutino (Julho de 1982).
Em 1982, fez parte do grupo de jornalistas fundadores do Semanário Desportivo “Off-Side”, tendo, em 1983, recebido em serviço deste jornal o prémio Gandula (Revelação) de Wilson Brasil.
Deixa, entretanto, o “Off-Side”, para entrar, em Outubro de 1983, na delegação de Lisboa do jornal “Comércio do Porto” onde esteve até Fevereiro de 1986.
Em Março de 86 regressa aos quadros do “Correio da Manhã” onde desempenhou os cargos de repórter-fotográfico, sub-coordenador, tendo sido nomeado em Janeiro de 2002 para o cargo de Editor Fotográfico, função que desempenhou até 31 de Outubro de 2002.
Foi como fotojornalista do “Correio da Manhã” que Marques Valentim, realizou vários trabalhos de tauromaquia, tema que o entusiasmou e o levou a realizar diversas exposições. Em 2001, recebeu uma menção honrosa, da revista “Visão”, relacionada com o prestigiado concurso de fotojornalismo “Visão”, cuja foto premiada era sobre esta temática. Em 2001 é também autor do cartaz da Feira Taurina de San Juan, em Badajoz. Colabora, actualmente, em revistas temáticas, como free-lancer, bem como para empresas ou organismos do Estado.
Em Dezembro de 2003, foi co-autor com Andrade Guerra e Isabel Trindade, do livro “Combatentes do Ultramar”.
Reencontrar locais e gentes
O fotojornalista Marques Valentim pede publicamente a colaboração de todas as pessoas com vista a reencontrar as caras e identificar os sítios das fotos que irá apresentar, de 20 a 29 no Centro Cultural e Congressos de Angra do Heroísmo.
O objectivo, conta, é o de voltar a fotografar as pessoas e os locais passados 28 anos depois com vista à edição de um livro para comemoração do sismo de 80 daqui a dois anos por altura da celebração da passagem dos 30 anos do sismo de 80.